Inspirações e experiências

2022

Brincar livre: o que acontece quando a sociedade confia na força do brincar?

19 de maio de 2022

Criar espaço, tempo e oferecer presença é papel de toda a sociedade para defender o potencial do brincar livre

Por Tatiana Ribeiro

Existem brincadeiras úteis para um fim específico? Para ajudar no desfralde, na chegada de um irmãozinho, para estimular essa ou aquela habilidade? A psicóloga e sócia fundadora do Ninguém Cresce Sozinho, Patrícia Grinfeld, conta que essa é uma pergunta frequente no consultório e nas buscas de conteúdo em seu site. De fato, brincar auxilia no desenvolvimento físico e psíquico das crianças. Mas, o que tem chamado sua atenção é que essas dúvidas podem demonstrar como estamos perdendo a confiança no pleno potencial do livre brincar

“Às vezes a gente procura muita referência fora, parece que é só o outro quem sabe. Tem se buscado a brincadeira com muita funcionalidade, mas ela surge espontaneamente. A criança dá a direção do que ela é capaz, do que ela gosta de brincar, do que ela precisa”, conta Patrícia, que tem feito um trabalho de rodas de conversa, atendimento psicológico individual e orientação para pais.  

Está na carta de princípios da Aliança pela Infância que “a infância é tempo de aprender a confiar”. Para que as crianças possam confiar em um amanhã, elas precisam, antes de tudo, confiar umas nas outras e em si mesmas. É por isso que na Semana Mundial do Brincar de 2022, reforçamos o brincar livre como a raiz forte que estrutura esse belo processo de aprender a confiar. 

Brincar livre é aquele não direcionado pelos adultos, que acontece de maneira espontânea, quando as próprias crianças decidem do que e como irão brincar. É no livre brincar que as crianças se expressam e se relacionam com o mundo a sua volta, criando a si mesmas e novos mundos possíveis. 

É claro que podemos pesquisar e aprender brincadeiras diferentes para nos divertimos com nossas crianças, mas o que temos visto é um minguar de condições para que o livre brincar possa acontecer. Segundo Patrícia, um bom começo é diferenciar o brincar do entreter. “Em muitos buffets infantis, por exemplo, o conceito é manter a criança ocupada. Não é a criança inventando. A criança desocupada virou criança problema. Essa coisa de sempre ter que estar fazendo algo não dá espaço para surgir a brincadeira”, alerta.

O livre brincar, explica Patrícia, funciona como um campo de experimentação do que vai ser a vida lá fora. “No brincar as crianças podem se colocar num lugar que ainda não experimentaram. Se você está diante de uma criança que tem um conflito, que não sabe muito bem como resolver, brincando ela vai podendo achar caminhos para isso. A impossibilidade de brincar tira espaço de elaboração, de construção de pensamento, de espaço de confiança”, explica. 

Seja como cuidadores, pais, educadores, representantes da sociedade: todos nós adultos temos uma papel na defesa do brincar, que é oferecer presença, tempo e ambientes propícios para que os pequenos possam brincar e se expressar. 

“Sair do lugar de que o brincar deve ser produtivo, de que deve ter um objetivo. A brincadeira que verdadeiramente estimula é essa brincadeira que permite que a criança experimente de tudo um pouco, que use o corpo, que use a cabeça, que experimente materiais”, enfatiza Patrícia. 

Brincar como um fim e não como um meio

Esse brincar como fim e não como meio vai de encontro a um estudo da pesquisadora do Brincar Livre junto ao coletivo Território do Brincar e professora na Eefe e FE – USP, Soraia Chung Saura. A pesquisa investigou como o brincar espontâneo dá luz a vivências estruturantes da cultura humana, sendo alicerce fundamental para o desenvolvimento integral das crianças. 

Durante um ano, Soraia acompanhou crianças de 2 a 5 anos brincando espontaneamente com materiais não estruturados e elementos da natureza. O que a pesquisadora e sua equipe observaram foi que o brincar espontâneo, por si só, promoveu desenvolvimento físico, motor, psicológico, intelectual e social, cumprindo assim as Diretrizes Curriculares Nacionais para Educação Infantil.

“Esse brincar livre e espontâneo vai na direção de necessidades internas quaisquer que sejam elas. Sensibilidade, exercícios, repetições, coisas simples que chamam atenção da criança, como colocar coisas em copinhos. Às vezes é um desafio mais expansivo de pular ou então se adaptar a elementos, como a água. Tudo isso vai constituindo a criança, ela vai se conhecendo melhor, quem eu sou, o que gosto, o que quero. E também o que eu posso. E o eu posso é um porvir, é um sonho”, conta. 

Outro ponto interessante do estudo, é que na contramão de propor atividades lúdicas para atingir objetivos específicos, o registro do processo do livre brincar das crianças tornou visível o lindo florescer de cada criança.

A Bella por exemplo, “chegou na escola silenciosa, delicada, bem educada e incapaz de invadir o espaço do outro”. Dentre os materiais disponibilizados, costumava escolher tecidos, brincava de cabaninhas, construía redes, onde permanecia aconchegada. Depois de um tempo, passou a se interessar por areia e água, buscando desafios junto aos meninos, como cavar túneis, castelos e lagoas. Ao final do trimestre, desejou brincadeiras que propunham movimentos ascensionais, “passou a construir para subir”. Uma fala sua, de peito estufado, lá de cima do trepa-trepa mais alto marcou a todos. “Eu sou a Rainha do mundo! Protejo todos os amigos dos inimigos!”. Na pesquisa, disponível no link, Soraia mostra o relato dos pais de Bella, que se impressionaram com o alargamento do repertório corporal da pequena.

“Entregamos uma menina tímida, encolhida e quieta, vocês nos devolvem uma menina feliz e sapeca, curiosa e investigativa. Como vocês fizeram isso”? Perguntaram. “Brincando”, as pesquisadoras responderam.

Soraia conta que é fundamental confiarmos na força do brincar uma vez que existe certo empoderamento via corpo. “Contra o ‘eu penso’ cartesiano, Merleau Ponty traz o ‘eu posso’, que é corporal. O brincar vai trabalhando desafios e a confiança na medida que a criança vai superando obstáculos. A Peo (Maria Amélia) dizia que a criança, na hora que ela vence um obstáculo, imediatamente procura outro. Não necessariamente corporal, mas um desafio. Ela está sempre buscando outro desafio maior e isso é crescer. A gente faz isso também. Essa busca é um atravessamento humano”, explica.

Atuando como pesquisadora voluntária na Associação Cheiro de Capim, que trabalha com crianças em situação de rua, Soraia recorda ainda como o brincar nutre vínculos e relações de confiança comunitária entre pessoas e espaços. 

“Experiências no meio da Praça da Sé mostraram isso. Ao trazer um peão, começar uma amarelinha, um desenho, de repente uma cena lúdica e alegre estava dada. É muito simples e muito profunda. Pessoas ao redor notam que ali está acontecendo algo de maior grandeza. O brincar e a cena lúdica humanizam a rua, humanizam os espaços. A partir de uma pequena provocação isso vai se construindo, como uma festa, que começa de pouquinho, as pessoas vão chegando, até um auge. Isso nos ermana, nos une, nos humaniza”, relata.

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