Dormir é muito mais do que uma pausa no fim do dia. É o território onde o corpo infantil se reorganiza, onde emoções encontram lugar e onde a vitalidade necessária para o dia seguinte se refaz. Uma infância que dorme bem é uma infância que acorda inteira, curiosa, brincante e disponível para investigar o mundo à sua volta. E a própria palavra sonho nos lembra que o que imaginamos durante a noite se conecta com aquilo que desejamos realizar quando despertamos. Uma noite bem dormida sustenta essa potência: a criança sonha e, ao acordar, reencontra outro tipo de sonho — o que mobiliza seu propósito, seu desejo de descobrir quem é, o que gosta, o que quer experimentar no mundo. Proteger o dormir é, portanto, proteger também essa capacidade de acordar com propósito, com a sensação interna de “eu posso”, tão necessária para o brincar livre, para a investigação espontânea e para a construção da própria identidade.
Para que isso aconteça, a criança precisa de ritmo e confiança. Dormir é um gesto de entrega, e a entrega só acontece quando o ambiente convida ao descanso. Ritmo não é rigidez: é o contorno que dá segurança ao corpo e à imaginação. São pequenas previsibilidades do cotidiano: a desaceleração da noite, um ritual que acalma, a presença tranquila do adulto… que ajudam a criança a sentir que o mundo a ampara. Quando cuidamos do ritmo do dormir, estamos dizendo silenciosamente: seu descanso é importante, sua calma é importante, seu bem-estar importa. Essa sensação de cuidado é uma das bases da confiança, e a confiança é uma das sementes mais profundas do encantamento.
O ambiente também é essencial. Dormir exige acolhimento: luz suave, ruídos moderados, temperatura confortável, presença afetuosa, rotina possível. Quando oferecemos isso, oferecemos não só um lugar para repousar, mas um lugar para devanear, para que a imaginação possa fluir, brincar e se reorganizar. Ambientes que acolhem o sono acolhem também o encantamento.
Mas o dormir é também um direito, que revela com dureza as desigualdades que marcam as infâncias brasileiras. Falar em proteger o encantamento das infâncias exige olhar, de maneira muito explícita, para as crianças que vivem em situação de vulnerabilidade. São meninas e meninos que tentam adormecer em casas superlotadas, em moradias inseguras, em regiões marcadas por violência, tráfego intenso, barulho constante ou apagões de energia; crianças que enfrentam noites fragmentadas por fome, medo, interrupções, ausência de rotina ou pela sobrecarga cotidiana de suas famílias. Para muitas delas, o sono não é continuidade: é sobrevivência.
Por isso, afirmar o direito de dormir em paz, sem fome, em uma moradia segura é também denunciar o quanto esse direito ainda está distante da realidade de grande parte das crianças do país. Proteger o dormir, nesse sentido, não é apenas cuidar do descanso, é assumir um compromisso profundo com os direitos humanos, com a equidade e com um país que reconheça que o encantamento só floresce onde a vida é digna.
Cuidar do dormir não é uma tarefa isolada, nem algo que acontece apenas dentro da casa de cada família. É parte de um compromisso coletivo com a infância como tempo de desenvolvimento, imaginação, saúde e poesia cotidiana. É entender que o descanso não é um detalhe, mas a base invisível que sustenta todas as outras experiências do dia. Proteger o encantamento das infâncias é garantir que cada criança possa adormecer com confiança, sonhar com liberdade e acordar com propósito, pronta para viver plenamente seu direito de brincar, aprender, se relacionar e existir em alegria.