Inspirações e experiências

2025

Por uma cultura de paz baseada na ancestralidade e na construção de territórios de paz

28 de novembro de 2025

Raifah Monteiro 

O que nos vem à mente quando ouvimos falar em “Cultura de Paz”? Em meio a um bombardeio de informações vindas de tantos canais e em uma velocidade estonteante — especialmente pelas redes de internet — torna-se difícil aprofundar qualquer discussão. 

O termo “Cultura de Paz” foi usado pela primeira vez em 1989, durante um congresso da UNESCO na cidade de Yamoussoukro, Costa do Marfim. Embora o termo possa ter sido aplicado em outras circunstâncias específicas, no entanto, da maneira que compreendemos e pensamos em incidência política atualmente, temos este recorte histórico. Nos anos 90, a teoria saiu do papel e foi testada na prática buscando ao longo de uma década o desenvolvimento de projetos em países como Moçambique, El Salvador e Burundi, marcados por diferentes cenários de conflito.

O reconhecimento global veio em 1999, quando a Assembleia Geral da ONU, por meio da resolução 52/15, proclamou o ano 2000 como o “Ano Internacional para uma Cultura de Paz”. Um ano antes, havia indicado o período de 2001 a 2010 como a “Década Internacional para uma Cultura de Paz e Não Violência para as Crianças do Mundo”. Novamente em 1999, a Assembleia Geral adotou, por meio da resolução 53/243, a Declaração e o Programa de Ação sobre uma Cultura de Paz.

O que deve nos fazer pensar de maneira crítica sobre esse recorte histórico acerca do termo é: Por que levou tanto tempo para se pensar de maneira global sobre essa temática? 

A ONU foi criada em 24 de outubro de 1945, após o fim da Segunda Guerra Mundial, sendo pensada para ser um espaço que busca promover a paz e desenvolver relações amistosas entre as nações. Por que os países do Norte Global passaram a enxergar os conflitos ao redor do mundo somente quando pessoas brancas na Europa começam a sofrer as mazelas oriundas das guerras e todo sofrimento trazidos por elas? Por qual motivo a coisificação de seres humanos arrancados do continente africano não foi vista pela humanidade como algo abominável? Por que dez milhões de congoleses mortos pela Bélgica sob a liderança do rei Leopoldo II entre 1885 e 1908 raramente aparecem no ranking dos maiores crimes contra a humanidade na história?

O objetivo não é desqualificar a criação de espaços de defesa de direitos como o ONU, mas precisamos sempre recontar a história para que possamos avançar de fato, pois muito anterior a qualquer resolução ou criação de qualquer entidade, povos originários de toda América, Quilombos no Brasil e Palenques em diversos contextos latino-americanos, e outros povos ao redor do mundo, já buscavam em seus territórios relações baseadas em afeto, cuidados mútuos, construção coletiva e tantas outras coisas necessárias para uma vida mais plena. Segundo Krenak (2022):

As crianças indígenas não são educadas, mas orientadas. Não aprendem a ser vencedoras, pois para uns vencerem outros precisam perder. Aprendem a partilhar o lugar onde vivem e o que têm para comer. Têm o exemplo de uma vida em que o indivíduo conta menos que o coletivo.

Evidenciado pela fala do autor, os povos originários e os povos da diáspora africana já vivenciavam o que a ONU traz muito antes do manifesto elaborado no ano 2000 para guiar as ações por uma Cultura de Paz: respeitar a vida, rejeitar a violência, ser generoso, ouvir para compreender, preservar o planeta e redescobrir a solidariedade.

A construção de territórios de paz 

 “Mas a senzala tá nova

 Pode crer tá bacana 

virou favela urbana 

no pé do morro…”  

Banda Uafro – Descobrimento segundo Adal

O território de Sapopemba é marcado por uma história de violência e ausência do Estado no que tange aos direitos básicos. Os grandes índices de violência, em especial no final da década de 1980, provocaram o surgimento de espaços e movimentos organizados reivindicando direitos para a população. Um desses espaços é o Centro de Defesa dos Direitos da Criança e do Adolescente (CEDECA), que utiliza dessas tecnologias ancestrais de enfrentamento às violências. 

Ao longo da minha atuação de dez anos neste território da zona leste de São Paulo, sempre me deparei com as contradições impostas para aqueles que vivem “às margens” do que seria o mínimo necessário para uma vida plena e saudável, indo na contramão do que fora pensado pela ONU.

Diante da ausência de um Estado garantidor, grande parte das experiências propostas no território por entidades, movimentos e coletivos empenhados na luta por direitos converge para a criação de espaços que assegurem, de fato, uma Cultura de Paz. Esses espaços consideram elementos como: desenvolvimento sustentável; respeito aos direitos humanos; igualdade de gênero; participação democrática; tolerância e solidariedade; comunicação participativa e livre circulação de informação; além de paz e segurança, conforme proposto pela ONU em 1999.

Precisamos exercitar uma construção olhando para as potencialidades existentes e que são invisibilizadas pela “naturalização” das diversas violências, visto que as pessoas aprenderam a conviver com esses processos não por uma questão de escolha, mas pela falta dela, uma vez que como diz o trecho da música acima da Banda UAFRO, o que temos hoje nas favelas, palafitas e rincões esquecidos são violências de um país que se teve como mito fundador a violência como elemento central. 

Uma das experiências no território de Sapopemba é o Bloco Eureca que, atualmente, configura-se como Rede. O Bloco é uma manifestação de protesto que começou em São Bernardo do Campo em 1991 com o “Projeto Meninos e Meninas de Rua”, expandindo para Interlagos e Sapopemba, e em outros momentos, acontecendo também em Diadema, Guarulhos, Campinas e Litoral. Trata-se de um espaço de participação efetiva de crianças e adolescentes por meio de processos formativos que levam em consideração a ludicidade e espaços de fala, sempre pensando em metodologias que rompam o máximo possível com uma visão adultocêntrica, trazendo para o debate temáticas que crianças, jovens e adolescentes pontuem e apontem em determinado momento. A tomada das ruas pelo Bloco juntando diversos territórios, entidades e movimentos é parte do resultado de todo um processo. 

Por isso é necessário olhar para esse futuro ancestral, pois às vezes a potencialidade está bem ao nosso lado e apenas não estamos enxergando. Se olharmos, por exemplo, para o que se tornou o carnaval hoje diante do apelo meramente comercial, apagamos a história de resistência, produção de cultura, aquilombamento e troca que nasce com surgimento de muitas Escolas de Samba. 

Na década de 1990, o Projeto Meninos e Meninas de Rua pensando em como divulgar a promulgação do Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA), viu nas potencialidades de uma festa popular como o carnaval a oportunidade de promover uma cultura de paz. Devemos pensar em meios de nos organizar que são extremamente transformadores, pois não estamos começando, e sim, continuando lutas que não são de agora. 

Além dessa experiência do Bloco Eureca, muitas outras ações do CEDECA vão nesta direção de resolução de conflitos. Espaços que são “ilhas de segurança” como a biblioteca Comunitária Admir do Santos, onde entendemos literatura enquanto um Direito; oficinas culturais do projeto “Engrenagens Culturais e Brincantes”, que compreendem o brincar como prática que fomenta à Cultura Paz; parcerias com o centro comunitário e Horta comunitária. 

Dentre outras parcerias e articulações, também contamos com o “Projeto Ecos e Reflexos América Latina”, do Núcleo de formação e Cultura do Cedeca Sapopemba, onde temos como uma das bases a difusão de ações de Cultura de paz nos territórios de Sapopemba, aqui no Brasil, e também na Colômbia. 

Como vemos em diversos documentos, cultura de paz não quer dizer apenas a ausência dos conflitos, mas a prevenção e a resolução não-violenta. No entanto, para termos pequenas revoluções em territórios marcados por processos violentos são necessárias algumas estratégias importantes e uma delas é enxergar o indivíduo em sua totalidade como um ser biopsicossocial. Essa maneira de olhar para cada pessoa que compõe aquela comunidade, grupo ou território nos permite visualizar reais possibilidades de resolução dos conflitos existentes, e que não temos soluções fáceis para problemas complexos.

Trago como exemplo uma pauta latente que é a segurança pública: a maneira como essa pauta é encarada recria a mesma lógica do período colonial, gerando ao invés de soluções, o agravamento da situação com assassinatos, corrupção, grupos de extermínio e encarceramento em massa. 

A meu ver, o nosso grande trunfo para disseminação da Cultura de Paz é nos propormos a pensar com base em nossa ancestralidade, em tudo o que defendiam e defendem os povos originários. É reviver Palmares, como uma das experiências de governança mais igualitária e acolhedora que tivemos, mesmo no período Colonial frente a tanto sangue e brutalidade da época. É fortalecer os vínculos e laços comunitários com a visão dos povos da floresta que falam que é necessário toda uma aldeia para educar uma criança. Precisamos nos lembrar sempre que às vezes as batalhas não serão pacíficas com quem quer a perpetuação dos processos de violência e coisificação do ser humano. 

A mitologia Iorubá, que atravessa e compõe a própria formação cultural do nosso país, nos apresenta o Orixá Ajagunã como símbolo do “conflito que antecede a paz”. Sob essa perspectiva, compreendemos que a paz não é fruto da passividade, mas do enfrentamento consciente das forças que a ameaçam. Olhar para essa filosofia é reconhecer que aqueles que nos negam o direito ao sossego não podem permanecer confortáveis em sua opressão.

Vamos fazer um mundo mais do nosso jeito 

empenhados em uma terra da amizade” 

Arena conta Zumbi 

Referências

UNESCO. UNESCO. Building Peace Through Education, Science and Culture. Disponível em: <https://www.unesco.org>. Acesso em 27 de nov. de 2025.

KRENAK, Ailton. O futuro é ancestral. São Paulo: Companhia das Letras, 2022.

ORGANIZAÇÃO DAS NAÇÕES UNIDAS. As Nações Unidas no Brasil. Brasília: ONU Brasil, s.d. Disponível em: https://brasil.un.org/pt-br

BANDA UAFRO. Descobrimento segundo Adal. s.l.: s.n., s.d. (Música).

AGÊNCIA SENADO. Cultura da paz combate a violência por meio do diálogo. Brasília: Senado Federal, 25 nov. 2014. Disponível em:< https://www12.senado.leg.br/noticias/especiais/especial-cidadania/evento-exige-atencao-a-1a-infancia/cultura-da-paz-combate-a-violencia-por-meio-do-dialogo>. Acesso em 27 de nov. de 2025.

UARNIERI, Gianfrancesco; BOAL, Augusto. Arena conta Zumbi. São Paulo: Teatro de Arena, 1965.

Acompanhe nas redes
-Aliança pela Infância - 55 11 3578-5001 - alianca@aliancapelainfancia.org.br