
Por Daniela Signorini Marcilio
As instituições que acolhem crianças e adolescentes fora do horário escolar — como o Centro para Crianças e Adolescentes (CCA) onde a pesquisa foi realizada — configuram-se como territórios fundamentais de convivência, criação e participação. Durante o período de investigação, observou-se que, nesses espaços, a infância não é apenas acompanhada, mas vivida em toda a sua complexidade cotidiana. A partir dos Estudos da Infância e de referenciais da educação não formal, o estudo buscou compreender, retrospectivamente, como as crianças se relacionavam com o território que habitavam no contraturno escolar, quais formas de participação construíam e reivindicavam, e de que modo exerciam suas vozes, desejos, estratégias, conflitos e invenções dentro da instituição.
Tratou-se de uma pesquisa qualitativa que integrou observações sistemáticas, brincadeiras, entrevistas e rodas de conversa com grupos infantis, com o intuito de analisar tanto as possibilidades de participação oferecidas pela instituição quanto as práticas efetivas produzidas pelas próprias crianças. A fundamentação teórica baseou-se especialmente no direito à participação, estabelecido pela Convenção sobre os Direitos da Criança (ONU, 1989), e nas reflexões de Lansdown (2010), que afirma que escutar crianças não é ato simbólico, mas compromisso ético, político e cotidiano. Assim, o texto articula teoria e prática: aproxima o que prescrevem os documentos legais do que as crianças revelaram em seus modos de existir, negociar e transformar o espaço.
É nesse encontro entre estudo, experiência e escuta que este texto se inscreve.
Há perguntas que, para serem verdadeiras, precisam ser tocadas com o corpo, escutadas com a pele e devolvidas ao mundo como gesto. “O que é Cultura de Paz?” É uma dessas questões que visita uma criança que chama pela mão e convida a olhar, sentir e criar o mundo mais uma vez, de outro modo.
No contexto pesquisado, a Cultura de Paz emergiu diretamente do ato de brincar. Não como simples atividade infantil, mas como condição de presença e convivência. O brincar constitui-se como o território mais primitivo da vida humana: nele se experimentam regras, disputas, consensos, frustrações, invenções, combinações e cuidado. É ali que a criança aprende que o mundo pode ser construído junto — e também onde o adulto reaprende que nenhuma coletividade se sustenta por comandos, mas por encontros.
A Cultura de Paz manifesta-se quando cada pessoa importa. Quando o território — uma quadra, uma sala, um corredor, um parque — deixa de ser apenas espaço e se torna lugar de existência compartilhada. Revela-se quando vozes pequenas não são diminuídas, mas ampliadas; quando ideias, simples ou complexas, são reconhecidas como matéria política; quando a participação deixa de ser convite eventual e se torna prática cotidiana. Nesse ponto, a infância se revela mestra.
As crianças do CCA demonstraram isso com intensidade durante toda a pesquisa. Ao falarem sobre “a quadra que não tem linha no chão”, “o parque de diversões”, “o dia do brinquedo”, “as injustiças da lição de casa” ou o desejo de fazer slime no refeitório, não discutiam apenas atividades. Elas afirmavam, de diferentes modos: queremos existir de verdade aqui.
Seus grupos nomeados nas rodas de conversa — Jokenpô, Palitinho, Mandonas, Os Grandes Aprontam, Aqui Não Pode Usar Peruca, É Pouco o Dinheiro — constituíam mapas de um território vivo. Cada nome carregava experiências, reivindicações e maneiras singulares de habitar o cotidiano do Centro.
As crianças percebiam materiais parados, filmes repetidos, votações confusas, regras arbitrárias, poucas oportunidades reais de criação, usos engessados dos espaços. Elas inventavam alternativas: antecipavam desenhos para “ganhar mais tempo de quadra”; negociavam temas; organizavam falas; usavam jokenpô para decidir ordens; propunham separações etárias para o cinema; sugeriam aulas, passeios, projetos e mutirões comunitários.
E quando afirmavam que “o dinheiro que vem da prefeitura é pouco”, diziam algo maior: que a participação é pouca.
Porque é disso que se trata a Cultura de Paz:
— de participar para existir;
— de escutar para transformar;
— de coletivizar para cuidar.
A disputa da quadra entre meninos e meninas não era apenas sobre bola: envolvia acesso ao espaço, gênero e equidade. O conflito sobre o uso do celular não era apenas sobre regras: tratava-se de tecnologia, segurança, racismo e construção de normas justas com quem vive suas consequências. A discussão sobre filmes não era mero entretenimento: era autonomia, diversidade, medo, maturidade e gestão compartilhada.
As crianças viviam esses temas intuitivamente. Não empregavam expressões como “direito à cidade”, “participação efetiva”, “protagonismo ou agência infantil”, mas experimentavam tudo isso no gesto de levantar a mão, desviar o olhar, discordar, rejeitar, silenciar, combinar, desistir, questionar, propor, mandar, rir, gritar, tentar outra vez. Porque a paz não é ausência de conflito, mas a forma como os conflitos são atravessados juntos.
E as crianças atravessavam com habilidade que muitas vezes se perde com a vida adulta, por exemplo:
— negociavam jogando jokenpô;
— reivindicavam brincando;
— ensinavam umas às outras;
— assumiam responsabilidades;
— criavam soluções coletivas mesmo quando o mundo pouco lhes oferecia espaço.
Portanto, uma Cultura de Paz se constrói quando gestão, equipe, famílias e crianças reconhecem que participar é tarefa coletiva — e que as crianças não são apenas público, mas autoras.
Ela se manifesta quando:
— cada grupo tem meios reais de opinar;
— a caixinha de sugestões não é retirada porque “as crianças pedem coisas impossíveis”, mas reinventada para favorecer diálogo;
— a quadra deixa de ser “território dos meninos” e se torna território plural;
— a agenda de atividades é planejada com as crianças, não para elas;
— o brincar não precisa ser merecido, mas garantido;
— a “enrolação da tia” é entendida não como desobediência, mas como estratégia viva de ampliar tempo de brincadeira.
Porque brincar é tempo de vida. É exercício de convivência. É obra de humanidade.
Não há Cultura de Paz sem brincar, pois o brincar é forma de aprender a ser no mundo com o outro. Na brincadeira, a criança experimenta regra e exceção, vitória e perda, espera e frustração, risco e invenção, alegria coletiva e criação de sentido. E, ao brincar juntas, as crianças inventam o território comum — não dado, mas construído, por e com elas.
As crianças do CCA mostraram isso quando:
— ensinavam brincadeiras entre idades diferentes;
— queriam misturar práticas da escola com atividades do Centro;
— propunham gestão participativa para diferentes atividades;
— discutiam o uso do dinheiro;
— relatavam injustiças e reivindicavam mudanças.
Talvez aí resida o sentido mais profundo da Cultura de Paz: um lugar onde a presença das crianças é reconhecida como potência; onde criar, discordar, combinar e imaginar tornam-se caminhos legítimos de tecer a vida comum; onde cada infância encontra espaço para existir e desabrochar à sua maneira.
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Texto inspirado na pesquisa “Que lugar é o lugar da criança? Investigando a participação de crianças e adolescentes na educação não formal, em um Centro de Crianças e Adolescentes (CCA), na zona leste da cidade de São Paulo”, disponível aqui: https://www.teses.usp.br/teses/disponiveis/48/48137/tde-26112021-122015/pt-br.php.