Por Gabriela Silva de Morais*

Esse texto é sobre uma visão de infância, começando pela minha. É um relato de experiências acerca do que as infâncias podem nos ensinar sobre o mundo e a humanidade que queremos. Esse texto é uma volta à memória da criança que fui e que permanece aqui comigo toda vez que me deparo com outra criança. E, antes de tudo, esse texto é um apelo para os adultos poderem se interessar pelas crianças, de modo que não retirem delas os direitos que possuem, mas deem espaço e atenção para que elas sejam elas mesmas.
Sou agradecida pelas crianças que conheci, mesmo de longe. E dedico a elas um mundo bom para viverem.
Tudo começa quando, onde as estrelas habitam, a gente escolhe os nossos destinos. Foi lá — tenho certeza de que foi lá — a escolha por ser professora. Nasci numa família grande e fui caçula por uns tempos. Filha de Maria das Graças e Jaime.
Das poucas lembranças que tenho da minha infância, sei que o voluntariado e a vida de pessoas em situação de vulnerabilidade estiveram presentes em minha biografia, pois era comum nesta família realizar mutirões e visitas a abrigos quando chovia em Salvador. As pessoas que perdiam tudo precisavam não só de roupas e alimentos, mas de alguém que se interessasse por elas. Eu via isso nitidamente. Eu queria estar próxima, mesmo sem entender quase nada do que se passava.
Essas vivências me levaram a olhar, desde pequena, para pessoas invisibilizadas. A educação que tive, graças à minha mãe e ao meu pai, me deu a oportunidade de experimentar e construir uma humanidade da qual hoje me orgulho. Trouxe desafios também, é bem verdade: demorei (e ainda tenho dificuldade) para precificar meus talentos; acabo realizando voluntariamente muitas ações; me sinto mais à vontade entre as pessoas socialmente menos favorecidas. Ressalto que nada disso é um problema; isso sou eu: com as delícias e tormentas que me compõem.
Preciso ainda dizer que, no sonho de criança, eu queria ser professora ou cantora. Ou os dois. Queria ser professora de crianças. Sempre fui boa estudante, mas achava desagradável não ter respostas dos adultos ou, pior ainda, não ter direito de perguntar, questionar, saber mais. Logo eu, um espírito inconformado e cheio de dúvidas! Intimamente eu dizia: “As crianças deveriam ter direito, afinal de contas: são gente, só que pequena!”
Cresci com essa convicção: criança é para ser cuidada, escutada, protegida. O mundo era mau, perigoso e injusto. Deste modo, cuidei dos meus sobrinhos e sobrinhas, do meu amado filho João Cândido e das crianças que me chegaram por via do professorado.
Dessas últimas é que quero relatar, mais especificamente. É que elas me mostraram mais a respeito do que é ouvir uma criança, promover espaço de liberdade para elas e manter o interesse pleno no que elas têm a dizer. Repito: as crianças têm muito a dizer!
Abro também um parêntese aqui para dizer que, nesta época, eu não conhecia os termos “educação positiva”, e sei que errei muito com meu filho e com minhas crianças. A educação e a autoeducação são processos distintos. As teorias, na prática, pouco ajudam. São importantes, claro, mas acredito que, mais importante ainda, é ter interesse por aquilo que você quer aprender. E a criança é um tesouro, que vai se desvelando pouco a pouco. Você só precisa reconhecer esse tesouro, e então ele se revela.
Voltando às crianças que tive a honra de ser professora, guardo alguns casos que partilho agora. Darei apenas as iniciais dos nomes, para preservá-los.
Menino G., de apenas 3 anos. Cheio de vida pulsante nos olhos, mas eram as suas mãozinhas que pulsavam mais. Agiam rápido, batiam, atiravam coisas. Sua boca, tão risonha, era também o lugar de palavras “feias”, pois sua dura e recente experiência de vida era assim: cheia de pancadas e palavrões.
E é.
O doce menino G. foi ganhando brilho nos olhos e palavras bonitas na boca. Aprendeu a pedir desculpas, a agradecer, a solicitar ajuda. Suas ágeis mãozinhas agora plantavam, pintavam, costuravam. Isso não é mágica; é cuidado, zelo. Esse menino conheceu a sua infância apenas aos 4 anos, podendo descansar sob nossa responsabilidade, sem pressa ou medo. Ao recordar dele, me emociono e me indigno, pois nenhuma criança deveria passar pela experiência dolorosa de não poder ser criança. E se não é criança, é o quê?
Parece que sobra um “não lugar”, pois adulto também não é. Essa sensação — de não poder ser criança, não poder errar, brincar, ser cuidada — é uma das violências mais absurdas, por si só. Com isso, há um apagamento do sujeito criança — que já ocorreu em diferentes épocas da História.
Com isso, lembro da criança que fui e das vezes em que escutei: você pergunta demais! Ou seja: você não deveria insistir em saber ou, na pior das hipóteses, do que adianta você saber, se ninguém vai validar sua voz? Vi isso de perto na escola, enquanto estudante, mas preciso dizer que também tive excelentes professores que me escutavam e me permitiam perguntar.
Lembro-me de outra história, agora de um jovem maiorzinho, de vida não muito diferente da criança anterior. Este chama-se A., 11 anos.
Corpo marcado e gestos furiosos. Ele estava em todas as confusões da escola; nada passava por ele sem que um insulto ou movimento bruto fosse desferido. “Ele é assim”, me diziam. Eu não acreditava. Eu gostava de vê-lo em movimento, pois era ágil e habilidoso. Suas mãos sabiam tricotar muito bem.
Gradualmente, esse jovem menino estava se aproximando de mim pelo simples fato de que eu o escutava, não gritava, nem o machucava. Os meses foram passando, seu comportamento foi mudando, se transformando… mas, num desses dias de mais movimento, o querido A. fez algo que não fazia há muito tempo: brigou e machucou uma colega. Lembro-me bem dos seus olhos desesperados ao me ver chegar perto. Era uma espécie de “decepção”, e ele, nitidamente, não queria me decepcionar.
Nesse momento, a intuição disse: acolha esse menino! Ele errou, a outra criança estava sofrendo, machucada, mas ele precisa que você confie nele. Bom, após ajudar quem estava machucada no físico, dirigi-me a ele com um caderninho em mãos.
Ele não sabia o que ia acontecer, nem eu. Mas eu queria muito que ele tivesse a sensação de que eu não ia desistir dele na primeira vacilada. Ou na segunda, terceira, quantas fossem!
Abri o caderninho e informei a ele que ali seriam colocadas informações importantes sobre ele. Para começar, uma lista de adjetivos bons. E um silêncio se fez. Ele não sabia dizer nenhuma característica boa que tinha. Nenhuma!
Comecei, então, eu mesma, a ditar e listar suas belezas: ágil, inteligente, bom amigo… e seu rosto mudou. Ele não lembrava — ou nunca disseram aquelas palavras sobre ele. Fizemos uma lista até o fim da página, e eu sabia que não tinha escrito tudo ainda.
Virei o caderno e disse: agora vamos escrever uma lista daquilo que você precisa melhorar! E ele teve mais facilidade para ditar, e eu fui escrevendo, mas não completamos a página inteira… Foi uma experiência curativa. Para ele e para mim.
E, na despedida desse momento, fiz um gesto simples e impensado, que foi retirar uma folhinha que estava grudada no cabelo dele, algo que o fez pensar que era um cafuné. Virou um cafuné. E aquele menino grande, de corpo ágil e movimentos bruscos, voltou a ser criança, deitando no meu colo e chorando copiosamente. Aquilo foi arrebatador! Chorei junto, escondida dele. Quis que ele curtisse aquele momento plenamente, sem precisar deixar de ser a pessoa cuidada.
Paro essa história por aqui, ao ter inúmeros episódios parecidos com esse. Infelizmente, ao sair da escola em que eu trabalhava, esse menino foi sendo tragado pela sociedade que não enxerga sua infância e juventude, cooptando-o para o universo do trabalho, da adição, das violências todas. Meu coração dói ao lembrar que ele poderia ter tido um destino diferente, se todos ao seu redor — família, escola, Estado, religião — formassem uma Aliança por ele, para ele.
Com isso, sigo acreditando que as crianças podem ensinar e transformar muito, se tiverem por perto adultos que as valorizem e acolham. É nessa relação — adulto-criança, criança-adulto — que o mundo pode ser melhor, por haver uma complementaridade e potência explicadas na beleza do novo e do velho se encontrarem.
E é num provérbio nigeriano, que já se difundiu em várias outras tradições africanas, que está resumida, para mim, a essência do que é uma verdadeira Aliança Pela Infância: “É preciso uma aldeia inteira para se criar uma criança.”
Que essas aldeias sejam formadas por gente que vê, na criança, o direito inerente de ela ser ela mesma.
No fim, tudo retorna àquela certeza antiga, quase sagrada: as crianças não são o futuro — elas são o presente mais delicado e mais poderoso que temos. Não exigem teorias; exigem olhos atentos, mãos disponíveis, corações que não desistam.
Ao revisitar minha própria infância e ao tocar as infâncias de G., de A. e de tantas outras, compreendo que educar é um ato profundamente político, espiritual e humano. É decidir, todos os dias, se seremos abrigo ou abandono; se seremos braços acolhedores ou braços que repelem.
Porque uma criança que não pode ser criança carrega um vazio que nenhuma fase adulta consegue preencher. E um adulto que se recusa a enxergar a criança que foi perde, junto, a chance de salvar a criança que hoje existe diante dele.
Então eu me pergunto: que mundo estamos oferecendo às nossas crianças? Estamos realmente ouvindo o que elas tentam nos dizer? Quem segura suas mãos quando elas tremem? Quem as protege quando o mundo se torna grande demais?
Estamos formando aldeias, ou deixando cada uma caminhar sozinha, com uma tela nas mãos?
Se é verdade que é preciso uma aldeia inteira para criar uma criança, então também é verdade que toda aldeia se revela na forma como trata suas crianças. E, no espelho desse cuidado, descobrimos quem realmente somos.
Que sejamos adultos que não se afastam, que não se cansam, que não silenciam; que sejamos adultos que escolhem, todos os dias, amar em forma de cuidado.
Porque quando uma criança é vista, o mundo inteiro começa a se tornar possível.
*Gabriela Silva de Morais se interessa em defender os direitos das crianças. É mãe de João Cândido, professora formada em Pedagogia e Pedagogia Waldorf, e intgra o Núcleo Sapiranga do Movimento Aliança Pela Infância.