Inspirações e experiências

2025

A roda primordial: do berço da vida à dança cósmica

20 de outubro de 2025

Por Adriana Klisys*

 

Retomando as experiências marcantes da Roda que habitam minha memória, para tecer um texto que me represente, surge esta sequência de vivências:

 

Houve um tempo em que meu universo era o útero materno, um cosmo particular em formação. Ali, o útero por si só já se revelava como um espaço circular, um círculo de proteção e nutrição. Dentro dele, eu estava em movimento constante – o pulsar da vida de minha mãe, o balanço do corpo dela, a própria dança sutil de meu desenvolvimento. Essa foi a minha primeira roda, a Roda da Origem, a Roda Primordial, da gestação, do surgimento da vida. Minha Roda-Mãe, o berço de toda a minha existência e percepção, um símbolo de ciclo e continuidade ininterruptos, onde o ritmo e a harmonia já permeavam meu ser.

 

Enquanto essa Roda Materna girava, todo o entorno se movia em esferas cada vez maiores, em uma Roda Cósmica que me embalava. A Terra, onde minha mãe estava, girava sobre seu próprio eixo – a roda do dia e da noite, do ciclo incessante de renovação. A Terra, com minha mãe e eu, orbitava o Sol – a roda das estações, do ano, da harmonia e da interdependência cósmica, que nos ensina sobre o lugar de cada um no grande balé universal. E o Sol, com todo o Sistema Solar, girava em torno do centro da Via Láctea – a Roda Galáctica, a dança maior do universo. Como um zoom out de um filme, meu olhar se distanciando e vendo, do espaço sideral, a Terra girando com minha mãe embalando minha primeira roda! Essa foi a epifania da Roda Universal, que revelou não haver uma única roda, mas um sistema de rodas concêntricas e interconectadas. Minha Roda Pessoal no útero, intrinsecamente ligada às rodas cósmicas desde a minha gestação, desvelava a profunda simbologia do centro e do eixo que tudo sustentam, da interdependência que tece cada parte e do ritmo e da harmonia que permeiam a própria vida.

 

Na sequência, a memória me levou ao corpo em êxtase no Giro Sufi: uma meditação em movimento de 15 minutos ininterruptos, uma dança dervixe no sentido anti-horário. Enquanto o pé esquerdo servia de eixo e o direito impulsionava o movimento contínuo, a mão direita se estendia ao céu, palma aberta para acolher a energia do universo, e a esquerda apontava à terra, com polegar e indicador unidos, a formar um círculo que simbolizava a união do divino e do terreno e a distribuição da energia cósmica. Assim, eu me tornava um eixo vivo, uma Roda Sagrada que buscava a união com o Absoluto e a conexão entre o celestial e o terreno.

 

Não muito depois, as danças circulares do mundo expandiram a minha alma, trazendo a sensação da universalidade do ritmo, e uma inesquecível ciranda com 6 círculos concêntricos, regida pela célebre cirandeira Lia de Itamaracá, onde o tempo pareceu parar e a unidade pulsou em cada ritmo e canção. Ali, revelou-se a Roda Lúdica e Coletiva: uma celebração vibrante de união, igualdade e inclusão, onde todos, conectados pelo mesmo ritmo e espaço, reforçam os laços sociais e a identidade coletiva que embala a plenitude da existência.

 

Essa sequência de memórias, tão íntima e, ao mesmo tempo, tão vasta, revela a Roda em sua essência mais pura: um símbolo universal de movimento contínuo, de ciclos que se renovam, de energia que se propaga. É a invenção que nos tirou do lugar, que nos impulsionou para frente, mas que, em sua profundidade, nos convida a encontrar e a honrar o eixo – aquele centro inabalável que dá sentido a todo giro.

 

Essa mesma busca por um eixo, fundamental para o movimento universal da Roda, torna-se ainda mais crucial quando pensamos na vida de cada criança. Para que sua própria Roda da Vida gire com alegria e confiança, ela precisa de um eixo central: um espaço seguro onde se sinta amada, compreendida e parte de um grupo. É esse eixo que a ajuda a entender o ritmo coletivo, a harmonia de brincar junto e a alegria de compartilhar, mostrando como todos se encaixam e se movem juntos. Com essa base firme, a criança pode girar livremente na roda da criatividade e do crescimento, aprendendo a se expressar, a fazer amigos e a descobrir o mundo. É o seu centro verdadeiro, aquilo que a faz única e feliz, dando estabilidade para todas as suas brincadeiras e interações, e permitindo que ela se conecte com os outros de forma genuína.

 

Esse eixo central, cultivado desde a infância, torna-se a bússola para a grande Roda da Vida, com seus inevitáveis altos e baixos, suas oportunidades e desafios. O giro dessa roda é constante, e as experiências que ela nos traz são como as voltas que nos moldam. Cada fase, cada novo jogo, cada interação nos oferece a chance de acumular sabedoria. As experiências, sejam elas de alegria ou de superação, tornam-se nosso tesouro interior, iluminando os próximos giros da roda e nos tornando mais ricos em discernimento e compreensão. É a luz da nossa intuição aguçada, da nossa paixão genuína e da nossa clareza de propósito que ilumina o caminho da Roda. Em momentos de incerteza, quando a Roda parece emperrar ou o caminho está obscuro, essa luz interior mostra a direção, inspira a inovação e garante que a roda não apenas gire, mas gire com sentido, significado e um brilho que atrai e inspira.

 

Essa sabedoria acumulada nos capacita a agir com respeito e diálogo, valorizando a vida em todas as suas formas e tecendo, a cada giro da Roda, os fios de uma convivência harmoniosa que chamamos de Cultura da Paz.

 

Essa compreensão do eixo se aprofunda ao observarmos os múltiplos giros que nos cercam. O Giro Cósmico, na dança silenciosa de planetas e astros, ensina sobre ritmo, constância e a colaboração essencial para a vida em harmonia. O Giro Sagrado, na dança do dervixe sufi, convida ao autoconhecimento, à busca do centro inabalável e à conexão do terreno com o divino, promovendo paz interior. E o Giro Lúdico e Coletivo, na Roda-Ciranda, revela a escola primária do Bem Viver, onde crianças dão as mãos, aprendem cooperação, inclusão e pertencimento, celebrando a diversidade e a alegria do coletivo.

 

A intersecção desses giros revela um fio condutor para um mundo mais sensível: a Centralidade do Propósito, a Harmonia da Roda, a Força da Conexão e a Ludicidade como Linguagem Universal. Da Roda-Mãe ao cósmico, do dervixe à ciranda de Lia de Itamaracá, a Roda nos chama a sentir o ritmo e a nos deixar levar pela energia transformadora do coletivo e do individual. Ela é a metáfora da vida em constante movimento, sempre conectada, buscando um centro que impulsiona a girar com brilho e sentido.

 

Que cada giro da Roda da Vida inspire o florescimento humano, um processo contínuo de autodescoberta e conexão. Que a busca pelo eixo interior e a harmonia com o coletivo teçam uma vibrante Cultura da Paz e um autêntico Bem Viver. Que essa dança incessante nos impulsione a crescer, a inovar e a encontrar significado, manifestando a plenitude de ser e pertencer em cada jornada.

 

*Adriana Klisys, psicóloga e autora de livros, é consultora em Ludicidade, Arte e Cultura. Fundadora da Drix Klisys Editora, seu trabalho inspira um mundo mais sensível e o Bem Viver através da escrita.

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