Inspirações e experiências

Brincar

A respiração da criança com o mundo

24 de maio de 2026

Por Stela Barbieri

 

Entre uma contração e outra há uma pausa. Nesse intervalo breve, a mãe respira mais devagar, recolhe forças. Depois, o tempo entre as pausas diminui, a intensidade cresce, e o bebê — pelo seu movimento e pelo trabalho da mãe — ganha mundo. 

 

Logo nos primeiros dias, as crianças revelam curiosidade pelo que acontece fora da barriga. Movimentam o corpo inteiro em suas primeiras investigações. Perceber os sons, as luzes, as intensidades, as expressões, o calor da pele, o tom de voz e a risada; mamar, sentir o acolhimento do colo, reconhecer ritmos —tudo isso compõe o cotidiano desses meninos e meninas que começam a habitar este mundo. 

 

Nos primeiros momentos da vida, a pausa é ritmada pelo corpo: pelas batidas do coração, pelo ar que entra e sai, pelas necessidades, pelos prazeres, pelas dores e urgências de viver em um planeta da matéria. A criança respira com o mundo. É permeável ao entorno: pode estranhar o barulho intenso, um rosto desconhecido, um humor alterado, o latido repentino de um cachorro. Cada acontecimento convoca presença.

 

Fazemos pausas entre as respirações desde que nascemos, embora quase nunca nos demos conta disso. Ao engatinhar, nos surpreendíamos com o que encontrávamos pelo caminho: uma pedra, uma formiga, o tapete macio, o cimento áspero. Sentíamos o mundo com a pele, com os joelhos, com os pés, com o corpo inteiro.  A pausa do choro, a pausa para sentir o cheiro, a pausa do olhar — momentos em que atenção, afetos e investigações coexistem. Na primeira infância nada é automático: inauguramos a existência com uma disponibilidade rara, cheia de nuances e gradações sensíveis.

 

É nesse tempo inaugural que a pausa é condição de encontro. 

 

Mas em muitos contextos do mundo contemporâneo, há uma expectativa de que tudo aconteça rapidamente: que a criança logo depois de nascer sente, logo depois de mamar coma comida, e depois engatinhe, e depois ande e depois desenhe, e depois escreva e leia… Em um modo contínuo, há uma tendência a valorizar a próxima etapa e pouca celebração do presente.  

 

Emmi Pikler (2013) nos convida a perceber a presença da criança no mundo sem apressar processos. De certo modo, olha para a pausa não como interrupção da aprendizagem do bebê, mas como condição para que ela aconteça. Para Pikler, o bebê é um sujeito ativo, capaz de iniciar movimentos, explorações e também de interrompê-los quando precisa integrar o vivido. As pausas que as crianças criam — ao parar antes de rolar, ao suspender o gesto, ao observar longamente o próprio pé — são momentos de escuta do corpo, de apropriação da experiência. Respeitar essas pausas é reconhecer a inteligência sensível do bebê, seu ritmo próprio, sua maneira singular de estar no mundo. Não se trata de apressar conquistas, mas de confiar no tempo do corpo, permitindo que a ação nasça do desejo e não da condução externa.

 

Para Virgínia Kastrup e Caio H. Fernandes (2020), a cartografia do bebê não se faz em linha reta, nem por acúmulo de estímulos, mas por hesitações, desvios, suspensões. A pausa é o instante em que a atenção vagueia, tateia, experimenta. Nesse intervalo, o bebê está cartografando forças, intensidades, afetos. A pausa, aqui, é um limiar, um entre — entre o gesto e o sentido, entre o sentir e o agir — onde a invenção pode emergir.

 

Desta maneira, tanto em Pikler (2013) quanto em Kastrup e Fernandes (2020), a pausa é vista como potência. Ela sustenta a experiência, protege o tempo do encontro consigo e com o outro e abre espaço para que a criança se localize no seu próprio movimento de conhecer. Pausar é permitir que o vivido se inscreva no corpo, que a atenção se expanda, que a relação com o entorno se faça por contágio e não por imposição. A pausa é, portanto, um gesto ético: um modo de acompanhar a infância sem capturá-la, de estar junto sem acelerar, de cuidar sem antecipar ou controlar.

 

Daniel Stern (1992) nos lembra que a pausa não é apenas um intervalo entre gestos, mas o espaço onde se organiza o próprio sentido de si: nos primeiros meses o bebê vai entrelaçando sensações dispersas até formar um núcleo de experiência — um emergir de si que se torna cada vez mais atento em reconhecer invariantes; é nesse entre que se inscrevem as memórias episódicas iniciais, a regulação afetiva e a sintonia intersubjetiva com o cuidador, que ajuda a modular intensidades e a transformar o choque sensorial em narrativa vivida. 

 

Assim, a pausa que Pikler (2013) valoriza como condição do movimento e a hesitação que Kastrup e Fernandes (2020) descrevem dentro do método da cartografia afetiva encontram em Stern a dimensão da pessoa em formação: que se organiza no tempo, pela repetição de ritmos compartilhados, pela sintonia afetiva e pela possibilidade de integrar o vivido — ou seja, pausar é também permitir que o bebê construa, no corpo e na relação, os relevos de seu próprio mundo.

 

Pausar é deixar espaço para que algo se anuncie. A criança não separa ação de escuta: ela age escutando e escuta com o corpo inteiro. O mundo chega como convite, e as perguntas vêm em forma de gesto, balbucio, sorriso, olhar prolongado, silêncio atento.

 

A vida em estado de ateliê começa assim: quando tudo é matéria expressiva — o chão, o som, a luz que atravessa a janela, o rosto que se aproxima. Não há hierarquia entre linguagens. A pele pensa, o ritmo organiza os sentidos, o olhar modula o vínculo. Cada pausa sustenta uma possibilidade de criação, como se o tempo respirasse junto com o corpo que vive com o mundo.

 

Nos momentos em que a linguagem é presença, não se trata ainda de nomear, mas de experimentar. A criança habita o intervalo entre sentir e significar. A pausa é esse terreno fértil onde o vivido repousa, onde o mundo não passa rápido demais. As temporalidades podem ser variadas em diálogo com a experiência. É ali que o vínculo se tece.

 

À medida que cresce, o mundo entra em outra velocidade. As pressões contemporâneas de uma vida ultra-acelerada, o ritmo dos dispositivos digitais, tomam os dias, e as pausas são empurradas para as bordas. Mas, na primeira infância, elas são centro — são método, ética e cuidado. Pausar é respeitar o tempo do corpo, do olhar, da curiosidade que se desdobra. É sustentar a pergunta antes de exigir resposta.

 

Talvez seja isso que a infância nos ensine: que viver é um exercício contínuo de atenção; que a presença tem ritmo; e que, sem pausas, perdemos o contato com a matéria viva do mundo — e conosco mesmo. 

 

Se, ao longo deste texto, a pausa aparece como ética, método e modo de estar, no catálogo da exposição Pausa ela se apresenta também como partilha de prática cotidiana, como pesquisa viva:

 

Pausa nasce de minhas pesquisas cotidianas, em instantes dilatados e embalos de presença, ora em silêncio, ora em melodia e movimento. Em tempos de disputa pela nossa atenção, de aceleração avassaladora, quando muitas vezes não é possível respirar para fazer escolhas, fabular – pausar – é um ato político. Em momentos de guerras, de violência, de conflitos externos e internos, reflorestar o imaginário abre a possibilidade de invenção, de comunidade e de participação. (BARBIERI, 2025)

 

Referências Bibliográficas

BARBIERI, Stela. Pausa. In: Catálogo da exposição Pausa. São Paulo: SESC 14 Bis, 2025.

FERNANDES, Caio Herlanin; KASTRUP, Virgínia. A atenção conjunta e o bebê cartógrafo: a cognição no plano dos afetos. Revista Psicologia & Sociedade, v. 32, 2020.

PIKLER, Emmi. Mover-se em liberdade: desenvolvimento da motricidade global. São Paulo: Omnisciência, 2013.

STERN, Daniel N. O mundo interpessoal do bebê. Porto Alegre: Artmed, 1992.

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