Inspirações e experiências

2025

A paz começa em nós: vivências, raízes e caminhos para cultivar a Cultura de Paz na Infância

2 de outubro de 2025

Por Aline França

Este ano me envolvi bastante na produção da “Semana da Infância e Cultura de Paz” pois finalmente encontrei um espaço que acolhesse sua intenção genuína: DIZER NÃO AO CONSUMISMO e sim à experiências com significado.

Eu tenho um pensamento complexo e sistêmico, então para mim, todo planejamento é como um grande “roteiro de cinema”, parto do tema e vou pesquisar referências, fundamentações, origem, etc. Utilizo a internet como um ponto de partida, mas o meu interesse mesmo é nas pessoas que vivem o que buscamos, é a “veia” que pulsa a vitalidade da coisa.

Foi desafiador construir essa fundamentação pois, em uma realidade tão superficial, violenta e egoísta, falar ou pesquisar, compreender e viver a cultura de paz é quase uma contra cultura. Mas quando eu quero aprender algo, meu “instinto de detetive” me ajuda e fiz assim:

Comecei pelo site de busca geral e entendi que este foi um conceito disseminado pela ONU a partir da seguinte linha do tempo:

* 1989:  acontece o Congresso Internacional sobre a Paz na Mente dos Homens (International Congress on Peace in the Minds of Men) em Iamussucro, na Costa do Marfim, entre 26 de junho e 1º de julho de 1989, com o objetivo de refletir e aprofundar o conceito de cultura de paz. O evento resultou na adoção da “Declaração de Iamussucro sobre a Paz na Mente dos Homens”, que definiu a paz de forma positiva – não apenas como a ausência de guerra – e apelou para o desenvolvimento de uma cultura de paz baseada na justiça e na parceria harmoniosa da humanidade com o meio ambiente. Este congresso é considerado um marco fundamental para o desenvolvimento do conceito e dos programas de “Cultura de Paz” da UNESCO nas décadas seguintes, inspirando a Década das Nações Unidas para a Educação em Direitos Humanos. A ideia tem raízes em tradições africanas milenares de coexistência pacificamente, inspirando o conceito moderno.

* 1992: Ganhou força com o documento “Uma Agenda Para a Paz” da ONU e a adoção pela Assembleia Geral da ONU em 1999.

* 1998: A Assembleia Geral da ONU lançou a Resolução A/53/25, que definiu a cultura de paz como um conjunto de valores, atitudes e comportamentos que rejeitam a violência e buscam a não-violência.

* 1999: A Assembleia Geral da ONU lançou oficialmente o Movimento Global para uma Cultura de Paz.

* 2000: A ONU declarou o ano como “Ano Internacional da Cultura de Paz” e a década de 2001-2010 como “Década Internacional para uma Cultura de Paz e não-violência para as crianças do mundo”. 

* 2001-2010: A década seguinte foi designada como a “Década Internacional para uma Cultura de Paz e Não-Violência para as Crianças do Mundo”.

* 2005: A Cúpula Mundial de 2005 criou a Comissão de Consolidação da Paz da ONU para ajudar países a se recuperarem de conflitos.

* 2020: A Assembleia Geral da ONU renovou o compromisso com a cultura de paz, destacando a importância da agenda durante a pandemia de Covid-19. 

Para isso, a ONU e a UNESCO desenvolveram o “Manifesto 2000” com a intenção de sistematizar e disseminar esse conceito, facilitando sua “implantabilidade”. A Cultura da Paz é vista como um conjunto de valores e não como um estado natural, mas como algo que deve ser construído através de um esforço coletivo, envolvendo um compromisso ativo de rejeitar a violência em todas as suas formas – física, psicológica, econômica e socioambiental. Enfatiza o diálogo, a negociação e a escuta para a resolução de conflitos e para criar novas formas de relacionamento, baseada nos direitos humanos – no respeito à dignidade humana e às liberdades fundamentais de todas as pessoas. E propõem para isso seis pilares para sua prática.

Depois, me lembrei que recém formada trabalhei em um espaço filosófico e lá conheci tudo isso e uma associação incrível, a Palas Athena, que tem sede em São Paulo e uma site incrível que descobri ter uma excelente área de pesquisa, onde você pode ler textos, entrevistas com ativistas, comprar e baixar livros e cartilhas, inclusive com sugestões de atividades para diversas idades e diferentes contextos.

E isso também me fez lembrar do livro que tinha da Editora Ominisciência, da Coleção Guerreiros da Paz e quem escreveu foi a Maeve Vida, uma querida e super atenciosa amiga que me presenteou, depois desta nossa troca, com a coleção completa dos Guerreiros e guerreira da Paz – Francisco, Tereza e Gandhi. Mandou junto o jogo de cartas “26 qualidades da alma” e outro livro lindíssimo: “O caminho da Flor – a arte dos arranjos florais para jovens: um caminho de autoconhecimento”. 

A partir disso, fiz essa sistematização que apresento aqui neste documento, para apresentar e conectar a equipe não apenas ao tema mas chegar à sua intenção genuína, que precisa nos “cutucar” enquanto adultas, educadoras, cuidadoras, formadoras. Para mim, trabalhar a paz, só faz sentido se “A PAZ COMEÇA EM NÓS”, na presença, reflexão e harmonização do nosso pensar, sentir e agir no mundo, na aceitação e amor incondicional de quem somos, com todas as nossas potências, que se passam “da medida certa” se tornam defeitos e prejudicam essa harmonia.

Foi uma grande oportunidade realizar toda essa pesquisa e ainda maior, compartilhar com vocẽs. Espero que gostem!

APRESENTANDO O TEMA – “CULTURA DE PAZ”

A cultura de paz na infância promove o desenvolvimento de valores como respeito, diálogo e partilha, essenciais para a não-violência. Atividades como rodas de conversa, brincadeiras cooperativas, contato com a natureza e práticas artísticas podem cultivar essas qualidades desde cedo, transformando o ambiente escolar e familiar num espaço mais afetuoso e inclusivo, onde as crianças aprendem a conviver e a resolver conflitos de forma pacífica, compreensiva, respeitosa e amorosa.

O que é Cultura de Paz na Infância?

É a construção de um mundo lúdico, equitativo e afetuoso, baseado em valores como respeito à vida, generosidade, solidariedade e cuidado com o planeta.

É a arte de viver em comunhão, dividindo e compartilhando, que pode ser estimulado pela forma como as crianças brincam e interagem a partir da ambientação e humanização promovida pela adulta responsável.

Envolve a promoção da paz interior, desde a escolha das cores para o ambiente, os recursos e materiais utilizados até as falas e propostas que convidam a momentos de calma e concentração, para que a paz exterior também possa ser cultivada – o silêncio como paz e não como autoritarismo, silenciamento ou punição, mas como estado de plenitude.

Como desenvolver a Cultura de Paz na Infância?

Os seis pilares da cultura de paz, conforme o Manifesto 2000 da UNESCO, são:

  1. Respeitar a vida: Valorizar e defender a vida e a dignidade de cada ser humano, sem qualquer forma de discriminação. 
  2. Rejeitar a violência: Praticar ativamente a não-violência, recusando-se a usar a violência física, psicológica, sexual, econômica ou socioambiental. 
  3. Ser generoso: Compartilhar tempo e recursos materiais num espírito de generosidade, buscando eliminar a exclusão, a injustiça e a opressão. 
  4. Ouvir para compreender: Promover a escuta ativa, comunicação positiva, liberdade de expressão e a diversidade cultural, priorizando sempre o diálogo e a escuta em vez do fanatismo e da rejeição do outro. 
  5. Preservar o planeta: Incentivar um comportamento de consumo responsável e práticas de desenvolvimento sustentável que respeitem todas as formas de vida e o equilíbrio da natureza. 
  6. Redescobrir a solidariedade: Contribuir para o desenvolvimento da comunidade, fomentando a participação democrática e a colaboração para construir novas formas de solidariedade. 

O Papel da Comunidade

Pais, educadores, instituições e a sociedade como um todo podem promover a cultura de paz através de  atitudes e comportamentos que visam construir um mundo mais pacífico, através do diálogo, da não-violência, da cooperação e do respeito pela vida e meio ambiente convictos de que as crianças aprendem por imitação e não por verborragia ou experiências sem sentido, significado e verdade.

A Aliança pela Infância é uma referência, promovendo anualmente a Semana da Infância e Cultura de Paz, um momento para idealizar e realizar atividades em torno do tema para as infâncias, o que inclui propostas para todas as idades, já que “é preciso uma aldeia inteira para educar uma criança”.

Programação: Semana da Criança – Outubro 

Segue abaixo a proposta que realizamos ao longo da “Semana da Infância e Cultura de Paz” como inspiração e referência de diferentes linguagens que promovem a Cultura de Paz. Vale ressaltar que o ritmo pensado e desenvolvido em nosso cotidiano já está fundamentado nesses valores de respeito à infância e criança como centro, ou seja, produtora de sua própria cultura e aprendizagem, sendo a adulta de referência o ambiente, contorno e facilitadora desse processo.

Recebemos as crianças pela manhã e tarde, quando têm entre zero e três anos estão sempre acompanhadas de uma cuidadora – mãe ou pai. O ambiente que possui dois grandes espaços – brincar dentro e brincar fora, está sempre harmonizado e esteticamente planejado por cantinhos horizontalmente e por idade verticalmente, prezando pelo conceito do “Movimento Slow” – living, kids, parenting, food, etc.

Ao chegarem, deixamos-as explorar livremente dentro ou fora para se harmonizarem com o ambiente, consigo e com as outras crianças. A partir da percepção do clima do ambiente, conduzimos o lanche antes ou depois da atividade dirigida. A atividade dirigida não é obrigatória de ser realizada pela criança nem de acontecer. Temos liberdade para alterações e não realização, com vista a melhor experiência da criança, o que inclui também o tempo de duração da proposta.

ara essa comunicação e compreensão com os adultos, desenvolvi a “Régua da Participação”, já que trabalhamos em uma lógica de inclusão integral. Isso quer dizer que, se caso for necessário alguma adaptação por conta da condição de uma criança fazemos, mas compreendemos que as crianças têm diferentes níveis de participação, concentração e experiência, então, ao invés de restringir a participação por idade, incluímos todas e aceitamos seu nível de participação com foco na oferta da experiência e ampliação de repertório da criança. 

Por exemplo, bebês de colo participam observando sua mãe ou pai fazendo, crianças pequenas participam com apoio e crianças maiores participam com autonomia. Cada atividade tem uma métrica adequada ao que a atividade propõe realizar, isso quer dizer que, por exemplo, não excluímos a tesoura nem a criança que ainda não tem coordenação motora para tal, mas incluímos os adultos no apoio e orientação de como fazer. E isso, é promover uma cultura de paz como nossa cultura institucional.

Depois de tanta experiência incrível, ir embora é desafiador, mas transformamos essa experiência com uma comunicação positiva. Afinal de contas, após um dia tão incrível, ir embora triste e chateado não é a nossa intenção. Então criamos propostas de despedidas, outros interesses e acordos de retornos que sempre acontecem. Assim despedir-se também se torna um ato pacífico.

Apresento abaixo nossa programação realizada de 6 à 11 de outubro de 2025:

Tema: O brincar que mora em mim

Inspiração: Cultura de Paz – Proteger o encantamento da infância

Segunda-feira – Respeitar a vida

M: Mandala da vida – vamos criar uma mandala utilizando elementos naturais de diferentes origens: minerais, vegetais e animais.

T: Colcha de retalhos – Vamos produzir quadradinhos de crochê enquanto os bebês brincam e exploram nosso quintal

OBS – Segunda para bebês: as tardes de segunda-feira são dedicadas especialmente aos bebês de 0 a 3 anos, oferecendo um espaço seguro e acolhedor para seu livre brincar e exploração, enquanto as mães são convidadas a desenvolverem um PROJETO COLETIVO DE CROCHÊ, onde a partir da produção de quadradinhos, faremos um lindo tapete para o espaço.

Terça-feira – Rejeitar a violência

M: Varal da paz – crianças criam mensagens e desenhos que celebram atitudes de cuidado, pendurando-as em um varal coletivo.

T: BRINCADEIRAS AQUÁTICAS: barquinho da paz OU Pombinha da paz – https://br.pinterest.com/pin/351912466625894/ 

 

Quarta-feira – Ser generosa

M: Potinho dos presentes invisíveis – cada criança criará sua “caixinha” com desenhos ou escrita de presentes invisíveis para serem trocados em família: um abraço, um sorriso, um elogio.

T: Pulseiras da generosidade – confecção de pulseirinhas de lã, limpa-cachimbo ou miçangas, que serão trocadas entre as crianças.

Quinta-feira – Ouvir para compreender

M: Oficina dos tambores – construção de pequenos tambores ou chocalhos para exploração de ritmos em grupo, ouvindo-se uns aos outros.

T: BRINCADEIRAS AQUÁTICAS: regar a paz OU retrato falado – em duplas, uma criança descreve como imagina algo e a outra desenha, exercitando a escuta atenta e trocando os desenhos como presente posteriormente

Sexta-feira – Preservar o planeta

M: Colagem ecológica – painel coletivo feito com folhas secas, sementes e papéis reciclados.

T: Mandala da terra – composição artística coletiva com tintas de terra na parede.

Sábado – Redescobrir a solidariedade (Quintal Aberto)

Feira de trocas de livros – espaço em que famílias e crianças trocam seus pertences.

Show de talentos – vamos convidar as famílias a compartilharem seus talentos artísticos. Caso não tenhamos talentos autorais, vamos fazer um “potinho dos talentos” onde cada um é convidado a escrever um “desafio” e após todos misturarem os papeizinhos no pote, cada um sorteia sua “apresentação”.

Oficina de tsurus “desejos de paz” – a partir da contação da “lenda da mulher garça” vamos convidar as crianças a pintarem seus pássaros feitos de prato de papel, e os adultos a fazerem origami.

Picnic de frutas – vamos convidar as famílias a trazerem uma fruta para compartilhar em nossa mesa de picnic coletivo.

Esta foi toda a minha vivência, de pesquisa à experiências felizes da Cultura de Paz para todas as idades através do brincar. Espero que este texto te inspire especialmente a se olhar, compreender e aceitar como uma agente da paz, a partir disso, é só transbordar.

 

Brilhe!

REFERÊNCIAS

https://www.palasathena.org.br/

https://omnisciencia.com.br/ 

https://educacaoparapaz.com.br/

https://www.unesco.org/pt/node/103830

https://decade-culture-of-peace.org/iycp/iycp-uk/manifeste/portugais.pdf

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