Suzana Macedo Soares*
O brincar do bebê
A possibilidade de organizar-se pelo movimento e se interessar pelo mundo ao seu redor começa nos primeiros meses de vida. Nessa fase, brincar e explorar o entorno se misturam. O primeiro brinquedo do bebê é sua própria mão, que passa casualmente diante de seus olhos. Aos poucos, ele percebe que essa mão não é um objeto externo e que pode fazê-la aparecer e desaparecer do campo visual, de acordo com seu desejo, controlando, aos poucos, o seu gesto.

A partir do terceiro ou quarto mês, ele fica mais tempo acordado e, aos poucos, aprenderá que pode pegar um objeto e soltá-lo, que pode sacudir, esfregar, golpear; que seus movimentos produzem efeitos sobre os objetos e que pode, portanto, explorar e se apropriar do mundo que o rodeia. Essas atividades são, por si só, uma fonte de aprendizado psicomotor, afetivo e cognitivo.
Para isso, é preciso organizar o espaço. Os bebês são colocados no chão firme, entre paredes ou ao ar livre, sempre deitados de costas, rodeados de alguns objetos leves, simples e variados, dispostos ao seu alcance, com os quais podem brincar livremente.

Para Emmi Pikler, “…se deixarmos os bebês se movimentarem livremente de costas sobre uma superfície plana e firme, lhes assegurando o espaço necessário e uma roupa que deixa livres as articulações, seu desenvolvimento motor se desenrolará de forma regular, a partir da posição dorsal, sem a ajuda direta do adulto” (Emmi Pikler, 1981).
O adulto contribui quando confia na capacidade de desenvolvimento e independência do bebê, aceitando a duração de cada etapa e oferecendo condições para que a experiência seja vivenciada com liberdade de movimentos. Assim, a criança se torna protagonista da ação, e não o adulto.
Não é preciso ensinar a criança a se sentar, engatinhar ou andar. Não se deve adiantar nenhuma fase motora, nem colocar a criança em uma posição que ela não tenha conquistado por si. As crianças que têm boa saúde física e emocional passam por todas as etapas da motricidade, sem ajuda direta do adulto.
Até que possam sentar-se por si mesmas, os bebês descobrem os pontos de apoio essenciais para a conquista de novas posturas e movimentos. Brincam deitados de costas, de lado ou de bruços, movimentando-se de maneira autônoma o tempo todo, encontrando por eles mesmos posições confortáveis para explorar objetos não estruturados ou de longo alcance.

Crianças que brincam em liberdade, por iniciativa própria, desenvolvem harmonia nos gestos, facilitando as manipulações; esquema corporal preciso, que permite maior equilíbrio e coordenação psicomotora; prudência, evitando acidentes; sentimento de competência, que gera autoestima positiva e segurança emocional; concentração e criatividade, necessários ao longo da vida.
Mas a possibilidade de o bebê brincar por iniciativa própria depende muito, também, da qualidade do vínculo afetivo construído pelo adulto cuidador, principalmente durante os momentos de cuidados corporais.
Cuidados com o bebê
Pikler valoriza muito esses momentos de cuidados, que devem acontecer com muita calma, para favorecer a formação de um vínculo emocional. Ela percebeu o que a ciência iria provar mais tarde: que as relações sociais e emocionais afetam o desenvolvimento cerebral.

Os cuidados, como alimentação, banho, mudança de roupas, troca de fralda e preparação para o sono, são oportunidades especiais para estabelecer um vínculo de segurança. O adulto precisa se manter presente no ato de cuidar. Suas mãos devem se mover em um ritmo compatível com o do bebê, e os estímulos táteis devem ser acompanhados de falas com voz suave, sobre o que está sendo feito no presente, sem pressa, esperando um sinal, uma reação do bebê, para que aconteça uma troca verdadeira entre os dois.
Essa atitude favorece a construção do sentimento de segurança e confiança do bebê. A ideia é que ele participe ativamente dos cuidados e vá se apropriando do próprio corpo, na interação com o adulto. Nutrido por esse vínculo afetivo, o bebê pode ir se separando gradativamente do adulto de referência para brincar no chão.
A pediatra Emmi Pikler dedicou sua vida a cuidar, acompanhar, observar e promover condições para o desenvolvimento sadio e pleno do bebê e da criança pequena. Seu foco de estudo é, principalmente, entre 0 e 3 anos de idade, fundamental para o desenvolvimento global harmonioso do ser humano. Para ela, os bebês sadios nascem competentes, ativos e dispostos a interagir com o meio físico, social e cultural desde o nascimento.
Emmi Pikler fez seus estudos de medicina em Viena, na década de 1920, e obteve sua licenciatura em pediatria no Hospital Universitário, com o cirurgião pediátrico Hans Salzer, no Hospital Mauthner Markhof, e Clemens Von Pirquet, no Hospital Infantil da Universidade de Viena.
Pirquet foi quem cunhou a palavra “alergia”, e seu trabalho contribuiu para o teste da tuberculose cutânea. Ele ensinava seus estagiários a envolverem a criança em uma conversa, dizer o que fariam antes de fazê-lo e obter a cooperação da criança — atitudes que só bem mais tarde foram consideradas no tratamento de crianças hospitalizadas.
Pirquet entendia que as crianças doentes, assim como as sadias, precisam brincar, movimentar-se, viver de forma saudável e desfrutar do ar da natureza. Ele ensinava condutas de cuidados e nutrição com bebês e crianças pequenas, de forma a proporcionar-lhes sensações de bem-estar, conforto e respeito no ambiente clínico.
Emmi Pikler observou que as crianças do bairro operário ao redor do hospital universitário apresentavam menos fraturas do que as crianças de famílias com maior poder aquisitivo, apesar de brincarem livremente, correrem pelas ruas e subirem nas árvores. Ela inferiu que as crianças que podem mover-se em liberdade e sem muitas restrições se tornam mais confiantes e prudentes, já que se apropriam do próprio corpo, aprendem a melhor maneira de cair e conhecem suas próprias capacidades e limites.
A motricidade livre passou a ser o tema de estudos por toda a vida da pediatra húngara. Ela observou, juntamente com uma equipe multidisciplinar, centenas de bebês se movimentando por iniciativa própria e realizou um estudo pioneiro e minucioso sobre cada etapa do desenvolvimento motor nos primeiros anos de vida. Com isso, deduziu que as conquistas motoras se dão com mais equilíbrio e precisão quando acontecem no ritmo singular de cada bebê, que se movimenta livremente em um ambiente seguro e preparado, com objetos não estruturados.
Emmi Pikler associava a saúde somática e psíquica à noção de interação do indivíduo com seu meio por meio da exploração, do brincar. Ela acreditava ser possível prevenir doenças por meio da criação de condições adequadas de vida, elaboradas de maneira reflexiva e detalhada, para promover o desenvolvimento infantil sadio.

As fases do desenvolvimento motor, desde o virar-se de lado até andar com segurança, são cumulativas. Logo, a criança pode permanecer executando os movimentos anteriores até se sentir segura na nova aquisição motora e usar o tempo necessário para isso, segundo sua singularidade. “Por meio da motricidade livre desenvolve-se uma atividade realmente autônoma e contínua, que é um fator fundamental na estruturação de uma personalidade competente” (Judith Falk, 2021).