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A cultura de paz que floresce na experiência do brincar

28 de novembro de 2025

Por Cristiano dos Santos

Começo este texto com uma pergunta reflexiva: é possível explicar ou ensinar o significado da palavra “paz” a uma criança bem pequena?

A paz é uma experiência — algo que se sente, se vive, se experimenta, e somente então se internaliza. Rubem Alves, no livro “Ostra feliz não faz pérola” (2008; 2021), diz: “Se fosse ensinar a uma criança a beleza da música, não começaria com partituras, notas e pautas. Ouviríamos juntos as melodias mais gostosas e lhe contaria sobre os instrumentos que fazem a música”.

A partir dessa metáfora tão delicada, convido você, leitor, a pensar nas infâncias de hoje: muitas vezes mais solitárias, mais isoladas e cada vez mais distantes das experiências de brincar e jogar em coletivo, espaços onde a semente de paz é plantada para, então, florescer.

Segundo a UNESCO, a cultura de paz é o “conjunto de valores, atitudes e comportamentos que rejeitam a violência e promovem o diálogo e a não-violência para solucionar conflitos”, conceito amplamente formulado na Resolução 53/243 da ONU (1999). Entre suas estratégias, estão:

 

  • respeitar a vida;
  • rejeitar a violência;
  • ser generoso;
  • ouvir para compreender;
  • preservar o planeta;
  • redescobrir a solidariedade (UNESCO, 2021).

 

Em um mundo cada vez mais conectado e, ao mesmo tempo, desconectado, enfrentamos a difícil tarefa de reconstruir a sociabilidade perdida. Precisamos urgentemente desconectar do digital e reconectar com o real, com o outro, com a presença, com o brincar — pois é aí que a cultura de paz floresce, dá frutos, se espalhando entre o coletivo e a mudança latente e necessária pode enfim acontecer.  Uma das formas mais antigas de encontro é o brincar. É sobre isso que trato a seguir.

No documentário “Começo da Vida 2 – Lá Fora” (2020), lançado em mais de 190 países, encontramos uma afirmação da professora Léa Tiriba (UNIRIO) que nos convoca à reflexão: “Cada criança que vem ao mundo é a natureza se manifestando, outra vez, e outra vez e outra vez. E como é que essas crianças vão ser tratadas? Essa é a questão”.

Esse cenário de separação social, consequência direta da sociedade moderna, tem afastado, silenciado e excluído crianças da vida cotidiana — espaço essencial para reconhecer o outro, aprender a conviver com respeito, cultivar a harmonia e, assim, semear uma cultura de paz. Há, portanto, uma necessidade urgente de reconstrução dos vínculos sociais, começando pela primeira comunidade da qual a criança faz parte: a família. É nela que se inauguram os gestos de participação social e emergem os primeiros reconhecimentos do brincar, que, mais tarde, se expandirão em encontros com outras crianças.

Como afirma Friedmann (2020), “na infância ocorrem processos de produção e de reprodução cultural, sistemas simbólicos acionados pelas crianças que dão sentido às suas experiências.” Isto posto, se não existem experiências culturais que valorizem o estar com o outro, qual cultura está sendo assimilada? Faz-se necessário recalcular a rota social, num verdadeiro movimento de Sankofa — “voltar para buscar o conhecimento do passado para construir o futuro” —, pois, como nos lembra Ailton Krenak, “o futuro é ancestral.”

A ancestralidade que proponho neste diálogo entre eu e você, leitor, é um convite a escutar a nossa criança adormecida, a reverenciar as relações que nascem do brincar e do jogar, a recordar os aprendizados espontâneos que emergiram das incontáveis experiências lúdicas que vivíamos. É um chamado para que possamos, enfim, escutar as infâncias de hoje: parar no tempo e contemplar o que não se vê, mas se sente.

Olhar as nuvens e adivinhar formas; brincar de telefone sem fio e rir das palavras que chegam diferentes ao atravessar tantas bocas; rir de piadas aparentemente sem sentido, mas que fazem a criança pensar e, assim, abrir caminhos para o senso crítico; brincar de adivinhação; cantar um acalanto para dormir, desenvolvendo o senso rítmico, talvez a primeira experiência musical da vida de uma criança,  gerando conexão e memórias afetivas que nos acompanham para sempre. 

Porque, antes de qualquer teoria, é no encontro simples, sincero e humano  que a paz começa a fluir e assim existir. “A maturidade da consciência alcançada por um ser humano depende de como ele vive como criança” (Verden-Zöller, p. 170, 2004).

E, por fim, deixo um convite: que possamos brincar com qualidade de tempo, com conexão real — olho no olho, e não na tela; menos touch screen e mais toque na pele, na mão; mais abraços apertados e menos emojis. Só assim alcançamos aquilo que realmente importa: a alma.

Levar a criança a brincar é urgente, indispensável e necessário, para que as infâncias de hoje, no amanhã, possam rir de momentos verdadeiros, e não apenas de memes ou vídeos curtos espalhados por aplicativos e redes instantâneas.

Que a rua volte a ser a principal rede social das infâncias; que os parques retomem seu lugar como território das experiências sensoriais e sociais; e que o brincar espontâneo e coletivo seja novamente o grande transmissor da cultura da infância, uma cultura que nasce das experiências vividas e que não deveria ocupar apenas páginas de livros de história, mas permanecer como memória compartilhada de todos nós.

Que os diálogos corporais voltem a surgir, existir e permanecer vivos, para que o gesto, o encontro e a presença possam, enfim, reconstruir a paz que floresce no brincar.

Referências Bibliográficas 

ALVES, Rubem. Ostra feliz não faz pérola. São Paulo: Planeta do Brasil, 2008.

FRIEDMANN, Adriana. A vez e a voz das crianças: escutas antropológicas e poéticas das infâncias. São Paulo: Panda Educação, 2020.

MATURANA, Humberto R.; VERDEN-ZÖLLER, Gerda. Amar e brincar: fundamentos esquecidos do humano. 3. ed. São Paulo: Palas Athena, 2004.

O COMEÇO da Vida 2 – Lá Fora. Direção: Renata Terra. Produção: Maria Farinha Filmes. Brasil: Fundação Maria Cecília Souto Vidigal; UNESCO; Instituto Alana, 2020. 1 documentário (85 min), son., color.

UNESCO; ASSOCIAÇÃO PALAS ATHENA (Brasil). Paz, como se faz? Semeando cultura de paz nas escolas. Autoria: Lia Diskin; Laura Gorresio Roizman. Brasília: UNESCO; Associação Palas Athena, 2021. 232 p. ISBN 978-65-86603-18-7. Disponível em: <https://unesdoc.unesco.org/ark:/48223/pf0000379604>. Acesso em 27 de nov. de 2025.

 

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