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Dia da mentira: e criança, mente ou cria?

1 de abril de 2021

Por que crianças podem trazer um fato de maneira diferente de como realmente aconteceu? Aliança pela Infância conversou com a psicóloga Ana Teresa de Castro Bonilha*, que levantou situações em que as crianças estão, na realidade, desenvolvendo uma forma de dizer algo para nós, adultos.  Confira:

O entendimento da mentira

A primeira manifestação da capacidade do ser humano de negar ou simular algo que não corresponde necessariamente à verdade já pode acontecer por volta dos dois anos. No entanto, o entendimento do que é uma mentira no mundo adulto é bem diferente de quando se é criança. “Não se pode dizer que criança mente utilizando a régua de um adulto, porque os adultos sabem o estrago que uma mentira pode causar no meio social, enquanto uma criança, não. Criar faz parte do desenvolvimento humano, todas as pessoas passam e é importante no sentido da compreensão da linguagem. Mas a profundidade do ato de mentir e suas consequências a criança pequena não tem”, explica a psicóloga.

Uma questão de perspectiva

Primeiro, é preciso reconhecer que crianças podem olhar uma situação a partir de suas perspectivas, sempre. “A criança sempre está trazendo alguma coisa e isso vai sendo mais elaborado conforme ela cresce, assim como a escolha de como contar algo, que vai se tornando mais complexa. Mas precisamos deixar claro que estamos percebendo. É o que acontece quando, por exemplo, duas crianças brigam e uma delas diz ‘ele me bateu’ enquanto o cenário inteiro contava com provocações dos dois lados. Neste momento, é possível conversar com as crianças e ajudá-las a relembrar, com generosidade, o que de fato aconteceu”, afirma Ana Teresa. 

A psicóloga lembra que também os adultos quando estão muito envolvidos emocionalmente em uma situação relembram os fatos a partir de suas referências, o que não é uma mentira, mas um relato a partir de sua percepção. “Por isso, com as crianças, é preciso ajudar a observar por outros pontos de vista, se colocar no lugar do outro, ampliar a visão de mundo, retomar a sequência lógica e cronológica dos fatos e, dependendo da faixa etária, entender sua causa e efeito”, complementa.

Narrativas que externalizam sentimentos

Segundo Ana Teresa, em geral, crianças entre três e quatro anos podem mentir com receio de broncas ou consequências, por saber que não deveriam ter tomado determinada atitude. Mas não se pode resumir a escolha da não verdade somente a isso. “Elas também podem mentir para proteger outras pessoas, como situações de confronto entre adultos em que se observa crianças tentando evitar conflitos e outras consequências, como no caso de uma separação litigiosa entre os pais –  onde os filhos pequenos ficam no meio de uma disputa sobre quem é o culpado pelo divórcio.”

Há, também, o outro lado, quando a criança quer propositalmente gerar uma consequência, para irmãos ou amigos, em uma tentativa de exteriorizar sua raiva ou frustração sobre algo. “Chamar atenção através de um fato que não aconteceu faz parte do desenvolvimento, mas não é por isso que vai espontaneamente acabar. O que faz esta fase passar é o dia a dia com os adultos, acolhendo com empatia e atenção os sentimentos da criança e o que ela quer transmitir”, salienta.

As aventuras do faz de conta

Também por volta dos quatro anos, há uma confusão entre o que é realidade e o que pode ser criado a partir de seu mundo interno. Neste momento, crianças podem preencher determinadas histórias para que se tornem mais emocionantes e interessantes, trazendo elementos ficcionais com riqueza, o que vai se tornando ainda mais elaborado por volta dos cinco anos, quando a linguagem está mais desenvolvida, assim como a habilidade para o jogo lúdico do faz de conta. 

“Em suas narrativas, eles conseguem construir uma história que tem base na realidade, mas que está toda permeada por aventuras, desejos e brincadeiras. Nestes casos, vale entrar na brincadeira, mas também é importante demonstrar para a criança que você sabe que aquilo está sendo construído de uma forma para se tornar mais interessante, com comentários como ‘que legal, estou vendo que isso lembra bastante aquele filme que vimos juntos’”, explica. 

O real e a imaginação

Ana Teresa comenta que já é esperado que uma criança com quatro ou cinco anos consiga entender o que é um faz de conta. Mas ela ainda tem muitas questões e dúvidas, que precisam ser acolhidas. “Não é um processo binário de tem e não tem, existe, não existe, real ou falso. A criança desconfia que o papai noel não existe mas continua acreditando em um bicho debaixo da cama. Vai depender da experiência de vida e do que foi mobilizado e dado mais credibilidade para ela por meio dos adultos”, afirma. 

Para a psicóloga há, ainda, uma questão cultural, uma vez que adultos também induzem as crianças e querem mantê-las vivenciando a imaginação como realidade somente naquilo que é bom, como o coelho da páscoa, a fada do dente e o papai noel. “A gente também cria realidades que não existem com muita riqueza de detalhes e elementos de comprovação para as crianças. Mas nos incomodamos quando algo traz sentimentos ruins ou provoca medo, nojo, ou o desconhecido. Tem gente que se incomoda, por exemplo, quando a criança diz que viu um amiguinho imaginário, que não existe, mas que disse algo para ela, como se isso fosse uma escolha de não dizer algo que é verdade. Mas, na realidade, a criança está somente com dificuldade de entender o que é verdade e o que é imaginação, com seu inconsciente se manifestando através de sonhos e ilusões”, afirma.

Mentindo para chamar atenção?

Para a psicóloga é preciso cuidado ao lidar com as mentiras, porque não necessariamente a criança tem clareza do que está tentando transmitir. “Pelo contrário, muitas vezes pode estar denunciando algo que não estamos enxergando. É o caso da criança que diz que está se sentindo mal, que está doente, e cada hora a dor é em um lugar, se atrapalhando inclusive com a lateralidade para recontar qual parte do corpo dói”, aborda. De acordo com Ana Teresa, nestes momentos, a criança pode estar denunciando algo ou mesmo pedindo uma atenção e um carinho que exige um olhar que nem para ela mesma é consciente, reforça. 

Acolher sem julgamentos e valorizar a verdade

Não é raro testemunhar uma cena em que um membro da família pergunta como a criança está indo na escola, expondo-a na frente dos demais. Se estiver indo mal, provavelmente uma criança por volta dos sete e oito anos não falará a verdade, com medo da exposição e dos julgamentos. “Mas dá para mudar a pergunta e acolher melhor a resposta perguntando de forma mais privada, por exemplo: ‘Está muito difícil a escola? Eu imagino, uma vez também já passei por isso. Você quer me contar mais?’, dando a oportunidade da criança desabafar a verdade”, diz.

Para os mais velhos, é importante, também, valorizar a verdade. “Depois que você mente, tomar coragem para falar a verdade é algo complexo e que exige coragem. Então é legal parabenizar, reconhecer o valor de assumir algo mesmo que tenha sido difícil, mas também pontuar o que aconteceu, retomando elementos que demonstrem o peso da mentira e o valor de agir com a verdade”. 

Ana Teresa Bonilha é psicóloga clínica e escolar com uma jornada na Educação de 20 anos, 13 como Orientadora Educacional. Atualmente exerce essa função em uma escola alemã em São Paulo, com crianças de 4 a 10 anos de idade.

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