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Artigo da filósofa e pedagoga Beatriz Antunes – Para escutar uma criança

5 de julho de 2017

Como podemos escutar uma criança de maneira sensível, sem trazê-la para o campo das ideias dos adultos?

Artigo de Beatriz Antunes divulgado originalmente no site Carta Educação

“Todos os usos da palavra a todos. Não exatamente porque todos sejam artistas, mas porque ninguém é escravo”. Escolhi começar com esta frase de Gianni Rodari porque poucos foram tão corajosos quanto ele ao defender a importância de ouvir a criança em sua melhor gramática: a da fantasia. Rodari, um dos fundadores da escola municipal de Reggio Emilia, Itália, bebeu na fonte do Surrealismo e trouxe a técnica de escrita automática para a pedagogia, defendendo a tese de que a criança tem mais a dizer do que sonha nosso vão tradicionalismo escolar. Com sugestões pré-formatadas de redação escolar, é impossível acessar o que as crianças podem produzir em termos de cultura literária.

Por isso, Rodari passou a trabalhar com propostas fora da caixinha, isto é, sugestões que misturavam universos díspares como contos de fadas e “o que você fez nas férias”, por exemplo, levando as crianças a sentirem-se livres para expressar aquilo que, de antemão, ninguém poderia supor que elas diriam. O mais relevante da frase, no entanto, é a oposição artista-escravo, usada para defender a ideia de que se deve permitir à criança o acesso ao mais nobre uso da língua. Longe do lugar-comum que liga expressão artística a “dom” ou a certa aptidão inata — “fala tão bonito, vai ser poeta quando crescer!” — Rodari sugere que bastaria libertar a criança do nosso furioso desejo de formatá-la para conhecer sua expressão linguística autêntica. Em outras palavras, escutá-la sem preconceitos.

Mas nem só de palavras vive a criança. O que seria preciso para escutá-la em suas múltiplas linguagens, como a brincadeira, o desenho e a expressão corporal, para ficar nessas poucas que são mais discutidas atualmente? Eis um debate que divide opiniões. Há quem pense que para escutar crianças o que se precisa é saber perguntar. Há os que pensam que não, basta ficar de canto e registrar o que elas fazem, um pouco na linha dos antropólogos pioneiros do século XIX que registravam “a vida natural do nativo” dessa ou daquela comunidade.

O que ambas as opiniões têm em comum é a percepção de que, quando se trata de debater escuta de crianças, o ponto nevrálgico é a metodologia. Trata-se de não induzir respostas nem provocar concordância com qualquer tese que se pretende comprovar, e sim de escutar o que as crianças têm de fato como verdadeiro para dizer.

Nesse sentido, um trabalho realizado por um professor colombiano nos traz um exemplo bastante rico. Durante uma década, Javier Naranjo coletou em suas salas de aula de crianças entre 3 e 10 anos definições das crianças sobre conceitos amplos como “homem”, “dinheiro” e “água” e posteriormente as reuniu num dicionário interessantíssimo. Ali, descobre-se que adulto é “uma pessoa que em toda coisa que fala, fala primeiro de si”, por exemplo, ou que o céu é “de onde sai o dia”. E por que não, nos perguntamos? Não há nada que não possa ser tomado como verdade nessas definições, mas descobrir a pretensa verdade na obra é o que menos importa.

O que se pode eleger como o grande feito desse delicioso livro é a constatação de que há uma espécie de língua comum da criança, que se reconhece como “fala de criança” em qualquer lugar do mundo, ainda que o conteúdo objetivo de cada definição reflita a experiência imediata daquele contexto social específico. A universalidade, no entanto, é o que encanta e faz o leitor adulto se reconhecer como alguém que um dia também se expressou assim.

Outro pesquisador, dessa vez o brasileiro Gandhy Piorski, artista plástico e estudioso dos imaginários, talvez tenha chegado a essa mesma conclusão em seu experimento realizado em 2013 com alunos da rede municipal de Fortaleza, Ceará. Incomodado com a fala de educadores que lamentavam o fato de que “as crianças da cidade já não sabem mais brincar”, ele reuniu um acervo gigantesco de sucatas industriais e propôs que as crianças construíssem seus próprios brinquedos em sessões de 2 horas por dia.

Ao final de um período relativamente curto, 1 mês, passaram pelo ateliê do pesquisador mais de 1.300 crianças. A produção que elas deixaram, no entanto, excedia número: foram mais de 1.700 objetos construídos por elas. E o mais importante: sem interferência de imagens inspiradoras (procedimento mais do que comum em oficinas de criação) ou direcionamentos que pudessem atravessar a liberdade criadora e tolher a expressão genuína. Segundo Piorski, sua diretiva era apenas: façam o que quiserem com o material. O acervo ficou depositado na instituição do pesquisador e foi exposto inicialmente no Centro Cultural Dragão do Mar, em Fortaleza, mas já rodou algumas capitais como São Paulo e Belo Horizonte.

Em um estudo ainda não publicado, Piorski conseguiu ver claramente a semelhança (por vezes impressionante) entre alguns desses objetos e obras de artistas consagrados da arte moderna e contemporânea, o que parece avalizar a tese, exposta no livro Brinquedos do chão, de que o brincar da criança a conecta com uma ancestralidade humana, criando um campo de ligação entre o tempo passado e o presente, realizando assim uma viagem intergeracional que talvez explique a sensação de nos reconhecer, mesmo adultos, nas definições presentes no dicionário das crianças colombianas.

Outro interessante exemplo de como se pode dar ouvido ao que dizem as crianças é o trabalho dos pesquisadores David Reeks e Renata Meirelles, que há 20 anos vêm captando imagens preciosas do brincar da criança brasileira. Nos filmes do programa Território do Brincar, vemos as crianças ora ensinando suas brincadeiras favoritas, ora simplesmente brincando em frente à câmera. Com o potencial inigualável do recurso audiovisual, que transmite os sons e as imagens do brincar, é possível sentir-se mais perto daquelas crianças e de uma maneira bastante sutil, sentir-se levado a pensar na própria infância — o que de novo reafirma o caráter de linguagem universal à brincadeira.


O Território do Brincar é um trabalho de escuta, registro e difusão da cultura infantil

No recentíssimo Terreiros do brincar, por exemplo, o foco são as festas populares, também chamadas de brincadeiras por muitos adultos que delas participam. É interessante pensar que num folguedo como o Nego Fugido, por exemplo, que ocorre na comunidade de Acupe, na Bahia, brincam homens, crianças e velhos em perfeita harmonia e — sem exagero — em um transe coletivo. Existe então uma linguagem comum na brincadeira, algo que é capaz de unir adultos e crianças em momentos de puro deixar-se levar, sem qualquer função além de brincar. Escutar crianças não é também, nessa perspectiva, um escutar a si mesmo? Não é, talvez, um voltar a ser criança, mesmo que por alguns instantes? Pode ser.

Me lembro de quando minha filha, hoje com 5 anos, começou a engatinhar. Em visita a minha casa, meu irmão passou alguns minutos no quarto conversando comigo enquanto eu dava de mamar a ela, e ao terminar, louca de sede e contando com a presença dele, saí do quarto e me dirigi à cozinha. Enquanto me refazia da sede que a amamentação produz, pude ouvir risadinhas e algum balbucio vindo do quarto.

Julguei que meu irmão, sem ter como conversar com a bebê, estava fazendo mímicas para ela rir, ou talvez as caretas que ele sempre gostou de fazer para qualquer um. Mas quando entrei no quarto, o que vi foi o contrário: meu irmão estava muito sério, deitado no tapete ao lado da minha filha, imitando os gestos dela. Perguntei o que ele estava fazendo e a resposta me ensinou um pouco sobre escuta de crianças: “Estou aprendendo a me mexer como ela. Olha como ela é boa de improvisação”. Meu irmão é dançarino contemporâneo, fez uma série de cursos no Brasil e no exterior, cursou aulas de dança tradicional indiana, balé clássico, é praticante da arte marcial indiano Kempô — e no entanto, foi estudar improvisação com uma bebê de 5 meses.

O que ele “ouviu” dessa criança, talvez seja próximo do que uma companhia de dança paulistana, a Lagartixa na Janela, criada e dirigida pela educadora Uxa Xavier, vem “ouvindo” há alguns anos. Nos espetáculos e performances, os bailarinos não são crianças. Os adultos, entretanto, passam a sensação de que é possível ocupar espaço no mundo de uma maneira diferente daquela com que nós adultos nos acostumamos. A estereotipia de uma representação do gesto da criança passa longe desses espetáculos. Existe, novamente, uma conversa possível entre gerações, um ensinamento que parte da criança para o adulto.

A companhia estuda os gestos das crianças, atua em escolas, observa o corpo infantil no espaço público da cidade. Esse estudo não seria completo, e não constituiria uma verdadeira escuta, entretanto, se não fosse devolvido através do corpo adulto que observa e estuda a criança. Gesto se ouve com gesto, movimento. Um pouco do poder que o Território do Brincar, de Reeks e Meirelles, vem desse mesmo encontro: gesto e movimento. Ali, por meio das câmeras, aqui, por meio do corpo.

Seja qual for a experiência, no entanto, é importante perguntar se temos escutado as crianças de maneira correta. Se ao invés de escutá-las, não as temos desterritorializado ao trazê-las para nossas assembleias, nossos fóruns primordialmente adultos para saber o que pensam e sentem. Longe de ter uma resposta pronta, este artigo pretendeu complicar um pouco mais esse debate, quem sabe se apelando para a criança que há em cada um de nós. Shhhiu: o que a sua criança está dizendo agora?

Vai lá:

Gramática da fantasia, de Gianni Rodari. Editora Summus, 1982.
Casa das estrelas: O universo contado pelas crianças, de Javier Naranjo. Editora Foz, 2016.
Brinquedos do chão — A natureza, o imaginário e o brincar, de Gandhy Piorski. Editora Peirópolis, 2016.
Programa Território do Brincar: http://territoriodobrincar.com.br/
Terreiros do brincar, direção de David Reeks e Renata Meirelles. Produção Maria Farinha Filmes (52 min.), cor, 2017.

(*) Beatriz Antunes é formada em filosofia e pedagogia. Por 12 anos foi editora de livros infanto-juvenis, tendo passado para o outro lado do balcão em 2010, quando começou a publicar artigos e textos de ficção. É co-autora do livro para a juventude De gatos a Galáxias — Trajetória poética de Haroldo de Campos e pesquisadora do Alana na área de Educação e Cultura da Infância.

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